José António Moreira
Lília Marques
Numa altura em que a Câmara Municipal se adapta à liderança social-democrata após 16 anos de domínio socialista, o Jornal de Espinho ouviu o homem que foi responsável pelas finanças da autarquia durante os mandatos de Lito Gomes de Almeida, substituído por Elsa Tavares devido a doença, e de Romeu Vitó. Valdemar Ribeiro, hoje a cerca de um mês de completar 76 anos, chegou mesmo a ser chefe do executivo camarário durante alguns meses, como o próprio o disse, “por força das circunstâncias”. O espinhense recordou esses tempos em que, dos bastidores, quis fazer mais e melhor numa daquelas que considerava “uma das Câmaras mais bem dirigidas do país”.
Valdemar Ribeiro explicou ao JE que a primeira vez que colaborou com a Câmara Municipal de Espinho foi há cerca de 34 anos, já que, antes de entrar para a autarquia na equipa de Lito Gomes de Almeida, o espinhense tinha sido já duas vezes vereador substituto, nomeadamente de Ângelo Cardoso e Carvalho e Sá. “Nunca deixava meter o meu nome nos elegíveis”, justificou. Quando Lito Gomes de Almeida concorreu para a presidência da autarquia, Valdemar Ribeiro aceitou o convite porque do partido lhe disseram que o seu nome foi proposto por unanimidade.
Eleições ganhas, Valdemar Ribeiro assumiu o pelouro das finanças e das juntas de freguesia e o seu objectivo foi, desde logo, definido: “a Câmara de Espinho era uma câmara das mais bem dirigidas de Portugal, mas eu acreditava que era possível fazer mais e foi isso que eu fiz”. O espinhense recordou ao JE que, naquela altura, a autarquia tinha “bastante dinheiro à ordem, porque os empregados tinham medo que não houvesse dinheiro para pagar os ordenados”. O vereador decidiu que os salários passariam “a cair na véspera na conta dos funcionários”.
Recordando episódios passados, o ex-vereador deu especial destaque a um que partilhou com o JE: “a Câmara tinha em Lisboa dinheiro do turismo destinado a fazer umas obras que nem projecto tinham. Eram 125 mil contos da autarquia e que não rendiam nada”. Nessa altura e por causa de uma cerimónia da atribuição do dinheiro do jogo, o secretário de Estado do Turismo, Joaquim Caldeira, deslocou-se a Espinho e, numa reunião, Valdemar Ribeiro pediu esse dinheiro para água e saneamento. Quando o dirigente argumentou que essas áreas não eram turismo, ele respondeu que “Espinho era uma terra de luxo, mas que ainda não tinha saneamento”. O responsável pelas finanças da autarquia acabou mesmo por conseguir que o dinheiro viesse para o concelho e foi ele mesmo a Lisboa buscá-lo, como lembrou à nossa reportagem.
Vereador com olho
para o património
Enquanto Valdemar Ribeiro foi vereador, a Câmara Municipal, como o próprio explicou, “encheu-se de comprar património”. Foi durante o seu tempo que a autarquia adquiriu a Fábrica Brandão Gomes, actualmente Fórum de Arte e Cultura de Espinho (FACE). Dessa compra, o espinhense recordou a inteligência de Lito Gomes de Almeida na realização do negócio. “O Lito tinha grandes conhecimentos e era muito esperto. Um dia, telefonou a uma pessoa a dizer que iríamos oferecer 55 mil contos, que era o valor pelo que ia à praça, e essa pessoa desistiu. Entretanto, no orçamento da Câmara, dizia que iríamos gastar 25 mil contos. Um grupo de Matosinhos viu o orçamento e ofereceu um pouco mais e nós conseguimos comprar a fábrica”, explicou ao JE.
Valdemar Ribeiro foi também o grande responsável pela compra de muitos terrenos por todo o concelho: “a última escritura que Lito Gomes de Almeida fez foi de um terreno com 10 mil metros que comprei a uma senhora de Anta a 150 escudos o metro”. A aquisição da Vila Manuela foi outra compra que passou pelas mãos do vereador. “A Câmara Municipal de Espinho tem um património em terrenos muito grande, porque nós precisávamos de fazer depósitos de água, tínhamos o projecto, contactávamos os proprietários e acontecia que, depois de acertado o preço, as pessoas diziam que iam ficar com umas pontas e nós comprávamos”, explicou, referindo-se a um negócio que fez na zona do Peso, em Silvalde.
De Lito Gomes de Almeida, além da sua inteligência, Valdemar Ribeiro disse ter sido “um grande homem”, que tinha plena confiança em si, mesmo para “guardar informações confidenciais”. Aliás, os dois estudaram no colégio ao mesmo tempo, embora o vereador fosse uns anos mais velho. Por isso, Lito Gomes de Almeida tratava-o sempre por senhor. A relação entre os dois era tão próxima que, quando o presidente da Câmara ficou doente, fez uma delegação de poderes a dizer que Valdemar era o substituto legal dele, embora o cargo tenha sido ocupado por Elsa Tavares, segunda vereadora.
Quando Elsa Tavares sofreu um enfarte, Valdemar Ribeiro assumiu a presidência da Câmara Municipal por uns meses, já no final do mandato. “Deixava tudo pronto para no dia seguinte estar tudo despachado”, lembrou ao JE. Pouco antes de Lito Gomes de Almeida falecer, ele e o vereador foram juntos a uma reunião no Partido Social-Democrata. “Foi a última vez que estive com ele”, declarou. Dessa reunião, o espinhense recordou que o presidente da Câmara disse que ele era indispensável, “para lhe apresentarem mais dez nomes para ele escolher os restantes”.
Entretanto, Romeu Vitó concorreu e ganhou a autarquia e Valdemar Ribeiro continuou no executivo camarário. Ao contrário do passado, e nos primeiros seis meses do mandato, o vereador ficou responsável pela gestão das piscinas municipais: “foi a primeira vez que a autarquia soube quanto custavam as piscinas, quanto é que rendiam”. E acrescentou: “Eu sou muito rigoroso, comigo, é a gestão ao tostão”. Ao final de meio ano, Romeu Vitó acabou por lhe passar a pasta das juntas de freguesia, porque “os presidentes eram muito exigentes”.
Valdemar Ribeiro tem seis filhos, dos quais apenas um não se licenciou (trabalha no estabelecimento comercial da família, a Casa Alves Ribeiro) por vontade própria, e fala deles com um enorme orgulho. “Os dois mais velhos foram os melhores alunos dos seus anos da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, e uma ainda é lá professora”. Dos seus quatro netos também licenciados, o espinhense fala carinhosamente e com o brilho do orgulho nos olhos.
Como o próprio explicou, o seu pai era “um dos homens mais ricos da Rua 19, mas não queria que se soubesse”. Por isso mesmo, Valdemar Ribeiro disse ter recebido “uma herança relativamente grande” e passou a sua vida a investir. “Ganhei muito dinheiro na vida, menos na altura em que estive na Câmara Municipal porque não podia fazer negócios, perdi muitos negócios por lá estar”, recordou. Durante os anos em que não foi vereador, o espinhense comprou muitas propriedades por todo o país: “em diversos concelhos do país, eu tenho cerca de 900 mil metros de área de terrenos”. Em Espinho, o ex-vereador era o proprietário do terreno onde hoje é o campo de futebol de Paramos: “eu dei nove mil metros quadrados para o campo e não pedi um tostão, deram-me o dinheiro que quiseram”. Entretanto, Valdemar Ribeiro disse já a Pinto Moreira que tinha, no mesmo local, mais terreno onde ficará impecável um parque: “disse que estava à disposição da autarquia, mas não quero 12 contos por metro como a Solverde quis nos terrenos do estádio do Espinho”.
Além da compra de propriedades, o espinhense é proprietária da torrefacção de café, que se situa a 10 metros da sua casa, na Rua 15, “que foi construída em 1930 e era a melhor fábrica do país, a mais bem equipada”. O negócio é complementado com o estabelecimento comercial na Rua 19, a Casa Alves Ribeiro, onde se vende café, vinhos, charcutaria, entre outros artigos. A loja é uma das mais antigas de Espinho e, mesmo com uma tentadora proposta de quase dois milhões e 500 mil euros (na altura, meio milhão de contos), Valdemar Ribeiro não vendeu. “Eu não a comprei, herdei-a”, justificou. De facto, esse foi um dos seus grandes objectivos: “ser dono da casa do meu pai”. Só aos 40 anos, idade em que não queria trabalhar para mais ninguém, ou seja, queria trabalhar para si, é que conseguiu que o seu pai lhe entregasse o negócio.
De acordo com o espinhense, a Casa Alves Ribeiro é “a casa em Portugal que tem a maior variedade e quantidade de Vinhos do Porto velhos”. O fascínio pelo Vinho do Porto é tal que Valdemar Ribeiro guarda religiosamente intacta uma garrafa do seu ano de nascimento, 1933. Nunca conseguiu, no entanto, adquirir um exemplar do ano de nascimento da sua esposa, em 1931: “a última foi vendida em Miami por 5000 euros”. Para compensar, tem uma de 1930, numa altura em que a sua esposa já “estava na barriga da mãe”.
Licenciatura
foi sonho por cumprir
Com tantos sucessos na vida, o ex-vereador nunca conseguiu cumprir o sonho de se licenciar. Na altura em que foi parte do executivo de Romeu Vitó, Valdemar Ribeiro tinha já tudo preparado para ir para a faculdade, para o Instituto Superior do Trabalho e das Ciências da Empresa, em Lisboa. Mas com o convite do presidente da Câmara para ser vereador a meio tempo, acabou por não ir. “Agora, já e tarde”, afirmou.
Na sua juventude, o espinhense foi, segundo contou ao JE, um excelente aluno. “Fiz os cursos todos da Federação do Sindicato do Sul e Ilhas e tive a maior nota a contabilidade geral a nível nacional, tirei 19,5 de frequência e 20 na prova final. Recebi o diploma na FIL entregue pelo secretário de Estado de Marcello Caetano, Silva Pinto”. Entretanto, concluiu também os cursos de contabilidade industrial, legislação do trabalho, fiscalidade e gestão, todos com 18 valores; fez o curso de analista de balanços (hoje, o equivalente ao Revisor Oficial de Contas) com 16, “o único de Aveiro a concluir entre oito em todo o país”, e de gestão financeira. Entretanto, o espinhense concluiu o Superior do Instituto Francês, habilitação com a qual poderia ser professor de francês e, já mais tarde, tirou um curso do CIFAG, organismo do Estado, onde, dos 33 alunos, ele era um dos três que não era licenciado. Durante esse curso, Valdemar Ribeiro foi colega de Fátima Felgueiras e Palmira Macedo (vereadora da Câmara do Porto).
Ao longo de 76 anos, o ex-vereador esteve ligado a várias colectividades e instituições do concelho. Foi sócio-fundador da Cerciespinho, pertenceu ao Sporting de Espinho, “no único ano em que o clube fechou as contas sem dever nada a ninguém”; fez parte dos Bombeiros Voluntários Espinhenses, da Associação Comercial e do já extinto Centro Cultural Dr. Manuel Laranjeira. “Servi uma série de coisas nesta terra. Entrei com as mãos limpas e saí com as mãos limpas sempre. Não há sítio que me possam apontar nada”, concluiu.
“Fábricas não fecham
por vergonha”
Quanto ao futuro da autarquia, agora novamente nas mãos do seu partido, o PSD, Valdemar Ribeiro alertou para o facto de a Câmara Municipal de Espinho ter “uma situação financeira que parece não ser fabulosa”. O espinhense conhece Pinto Moreira desde criança, altura que ia à Casa Alves Ribeiro com as tias, e vê na sua equipa “gente com muita qualidade, que não precisa de conselhos”. Desejou-lhe muita sorte e que “se mantenha por muitos anos”.
Já no que diz respeito à cidade, o ex-vereador defendeu que “Espinho está-se a transformar quase num museu”. Com esta mudança, Valdemar Ribeiro acredita que o concelho se pode desenvolver muito. O espinhense recordou a altura em que, no concelho, se sedeava uma das maiores fábricas de cordoaria do mundo, onde existiam muitas tapeçarias, a Fosforeira Portuguesa, a Hércules, a Lusocelulóide. Mas agora já nenhuma existe. Valdemar Ribeiro tem uma razão para isso: “José Mota fez o que eu nunca deixei a câmara do meu tempo fazer, cobrar uma derrama de 10 por cento”. Neste momento e na sua opinião, “grande parte das empresas de Espinho não ganham dinheiro e só não fecham por vergonha”.
O ex-vereador das finanças deixou no ar um aviso: “para fazer obras é preciso ter meios”, explicando que, no seu tempo, a autarquia nunca perdeu nenhum fundo europeu, porque tinha dinheiro próprio para comparticipar. “Se não houver fundos da própria Câmara, perdem-se fundos europeus”, explicou.
Quanto a algumas grandes obras que fizeram na cidade nos últimos tempos, Valdemar Ribeiro tem a sua opinião. O espinhense concordou com o enterramento da linha-férrea que “era de se fazer e que se fez”. No entanto, ressalvou que teria sido óptimo o seu prolongamento para norte e para sul, mas que é “uma obra que compromete os rendimentos da câmara Municipal para muitos anos”. Já no que diz respeito ao estacionamento, o ex-vereador diz ser radical. “A biblioteca não devia ter sido feita no sítio que foi e o Parque João de Deus deveria ter sido requalificado”. E justificou: “era a última oportunidade que nos tínhamos para fazer dois parques subterrâneos. Fazer um parque em frente à igreja não tem por onde se lhe pegue, além de que o preço por hora é caro”. A reconversão do mercado municipal “tinha que se fazer, já que, em cima da peixaria, tinha toneladas de excrementos de pombas” e a requalificação do centro da cidade foi “infeliz com os materiais que escolheu”, “as pessoas caem porque os ladrilhos estão partidos”.
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O último presidente do PSD
antes de José Mota
Romeu Vitó, falecido recentemente, foi o último presidente do PSD na Câmara de Espinho antes do domínio socialista, que manteve José Mota 16 anos no poder.
O presidente social-democrata constituiu o executivo conjuntamente com Elsa Tavares, Valdemar Ribeiro e Rolando de Sousa (PS), exercendo aquelas funções durante quatro anos.
Romeu Vitó foi ainda presidente da Junta de Espinho antes de assumir a presidência da Câmara. Colaborou igualmente com os escuteiros, com o Grupo Colombófilo, com os Bombeiros Voluntários de Espinho, com o Sp. de Espinho, onde foi presidente da Comissão Administrativa e da Assembleia Geral, com a Cruz Vermelha, foi fundador e presidente do Lions Clube de Espinho, tendo ainda deixado o seu contributo na Associação Comercial e Irmandade de Nossa Senhora da Ajuda, funções que ainda desempenhou este ano durante as festas da cidade.
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