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INFORMAÇÕES |  CONTACTOS | NEWSLETTER | PEÇA NOTÍCIAS | ARQUIVO | COMO ANUNCIAR Sexta-Feira, 10 de Setembro de 2010
 
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FALECEU O CÓNEGO JOSÉ DE OLIVEIRA ROSA
SINAL VISÍVEL E TANGÍVEL DA TERNURA DE DEUS

O cónego José Rosa era um dos leitores mais atentos e críticos de O Mensageiro. Não podemos deixar de recordar a abordagem quase sistemáica, após cada edição, com os elogios aos melhores textos e os reparos ao que menos lhe tinha agradado. Sempre de forma simpática, construtiva e amiga, mas directamente, sem rodeios ou meias-palavras.

Muitas foram também as vezes em que nos sugeriu temas, nos enviou
colaborações, ou em que a ele recorremos para esclarecer dúvidas,
completar informações, recolher memórias. Talvez não tenha sido por
acaso que fomos o último jornal a entrevistá-lo, em Julho do ano
passado. Apesar da debilidade física, encontrámos ainda a mesma
lucidez, a mesma amizade, a mesma disponibilidade sorridente.
Não podemos, por isso, deixar de o considerar como amigo e membro
da família de O Mensageiro. Estamos em condolências, solidários
com todos os seus familiares e amigos.

Faleceu no dia 19 de Setembro,
na Casa Diocesana do
Clero, aos 93 anos, e com 70
anos de ministério sacerdotal,
o cónego José de Oliveira Rosa.
Conhecido por muita gente
como organista na Catedral de
Leiria, ainda hoje é recordado
como “o que tocava os sinos
da Sé”. Foi, aliás, um dos impulsionadores
da aquisição do
novo órgão daquela igreja e do
restauro do carrilhão que se
encontra actualmente na torre,
onde funciona uma escola para
novos executantes daquele majestoso
instrumento.
Nascido em 31 de Julho de
1916, no lugar do Padrão, da
paróquia dos Pousos, entrou
para o Seminário de Leiria
em Outubro de 1927, tendo
sido ordenado presbítero a 6
de Agosto de 1939 e nomeado
Cónego da Catedral de Leiria
em 1951. Durante quase toda
a sua vida foi o organista principal
da catedral de Leiria e do
Seminário Diocesano, onde
foi director da Schola Cantorum
e professor de Latim,
Religião, Música, Piano, Órgão
e Canto Gregoriano, de muitas
gerações de seminaristas e de
quase todos os sacerdotes desta
Diocese. No seu ministério foi
ainda Chanceler da Câmara
Eclesiástica durante 56 anos,
notário-actuário do Tribunal
Eclesiástico, notário do Tribunal
para a Causa de Beatificação
dos Videntes de Fátima,
tesoureiro da Confraria de
Nossa Senhora da Encarnação,
bem como pároco e capelão
em diversas comunidades da
Diocese.
Missa exequial na Sé
A missa exequial de corpo
presente celebrada na Sé, pelas
11h00 do dia 21, foi presidida
pelo Bispo diocesano, D. António
Marto, concelebrada por
muitos dos seus colegas no
sacerdócio e participada por
algumas centenas de fiéis. Na
sua homilia, o Pastor salientou
o “ministério generoso e
desprendido” do cónego Rosa
e citou a passagem bíblica “Felizes
os mortos que morrem
no Senhor”, para se referir à
“apoteose que atingem todos
os que, como ele, amaram e
seguiram as bem-aventuranças
durante a sua vida”.
“Em primeiro lugar, estamos
aqui para adorar a vontade
santa de Deus; a adoração que
ele viveu, de gratidão perante
Deus, sempre com um sorriso
no rosto, sinal da alegria do seu
coração, da sua fé e do seu sacerdócio”,
afirmou D. António
Marto sobre o falecido cónego,
que “sem desconhecer as contrariedades,
procurava sempre
o lado bom da vida e aproveitava
todas as ocasiões para fazer
festa e brindar”.
Depois, o Prelado referiu
que este era também momento
para “agradecer o ministério
sacerdotal que ele viveu durante
70 anos, como sinal visível
e tangível da ternura de Deus,
com a simplicidade própria
dos pequeninos”. Nessa longa
caminhada, sobressaíram dois
aspectos: “o amor entranhado
ao Seminário, onde viveu
sempre e onde foi exemplo e
estímulo para os seminaristas,
e que pode ser ainda hoje um
testemunho vocacional”; e
“o tempo dedicado ao sacramento
da Reconciliação, onde
mais pôde exercer a ternura e
misericórdia de Deus, e que
hoje ainda pode ser apelo à
disponibilidade e dedicação
dos sacerdotes a este ministério”.
Finalmente, D. António
apontou o modo sereno e feliz
como o cónego Rosa viveu a
sua morte, como prova de que
“criatura alguma nos pode separar
do amor de Deus”. Este
deverá ser “um estímulo a
confessarmos e proclamarmos
a nossa esperança em Deus, e
a vivermos o dom da Piedade,
a relação íntima com Deus, que
nunca nos deixará sós”.
No tom emotivo que marcou
as suas palavras, o Bispo
diocesano concluiu dirigindo
uma oração a Deus: “Guarda-o
junto de ti; guarda-o na tua paz,
Senhor”!
No final da celebração,
sacerdotes e fiéis acompanharam
a urna em cortejo fúnebre
até às portas da Catedral, de
onde partiu para a celebração
Eucarística nos Pousos, sua paróquia
natal, em cujo cemitério
ficou sepultado.

Luís Miguel Ferraz

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À conversa com…

No dia 31 de Julho de
2008, O Mensageiro publicou
uma entrevista com
o cónego José de Oliveira
Rosa. Na altura a entrevista
vinha a propósito do seu
92º aniversário natalício. A
entrevista foi também um
dos últimos momentos em
que pudemos estar com o
entrevistado de forma lúcida,
serena e pacífica. Como
então escrevíamos ficamos
espantados ao ver chegar “
curvado, de bengala na mão
e cabelos brancos, meio titubeante
e à procura de um
suporte para fixar as mãos.
Uma primeira impressão
que nada teria a ver com
o homem que ao longo da
conversa se revelou conversador,
sábio, perspicaz e
bem-humorado”.
Passado um ano, queremos
confessar que nossa
entrevista escondia uma
intenção que na altura não
revelamos e que o próprio
não quis de forma alguma
empolgar. Tratava-se de
reconhecer e trazer à luz o
trabalho social que o cónego
Rosa, era assim conhecido,
realizou na diocese por
ocasião da Segunda Grande
Guerra. A Igreja não possuía
ainda um trabalho social
organizado e a diocese de
Leiria vivia ainda sob o calor
dos acontecimentos de
Fátima. Estes, aliás, tiveram
eco singular na alma e no
peito do cónego Rosa. Mas
mesmo assim, ou talvez por
isso, ei-lo de coração e alma
voltado para a causa dos
mais pobres, as crianças
vitimas da guerra. O seu
trabalho, consistiu essencialmente
na organização de
uma estrutura que pudesse
acolher algumas crianças
vindas, na sua maioria, da
Áustria. Organizado o transporte
das mesmas, eram depois
trazidas para a diocese
e eram confiadas a famílias
previamente seleccionadas e
preparadas para as acolher.
Depois o trabalho continuava
com o acompanhamento
regular a preocupação pelo
bem estar, até ao dia em que
fosse possível reencaminhalas
para a sua terra.
Foi um trabalho pioneiro,
árduo e difícil como
então nos confessou “Fui envolvido
neste trabalho, que
me deu enorme satisfação.
Aquelas crianças precisavam
de apoio psicológico, moral
e económico. Fazíamos o
possível para as ajudar.
Nem sempre foi fácil, mas
foi sempre compensador e
gratificante”.
Quando quisemos relacionar
estes acontecimentos
com o inicio daquilo a que
mais tarde viria a chamar-se
a Cáritas, ele olhou o chão
e de forma despretensiosa
disse-nos: “Não me considero
como fundador da Cáritas,
mas de facto há uma
explicação a dar sobre esse
assunto. O nome “Caritas”
está ligado à caridade para
com as crianças vítimas da
Segunda Grande Guerra. A
França, Áustria e Alemanha
organizaram uma complexa
rede de ajuda às crianças,
muitas delas órfãs, outras a
viverem em condições menos
favoráveis. A caridade
passava então pelo acolhimento
dessas crianças em
diferentes países e ao abrigo
de famílias acolhedoras.
Fui envolvido pelo facto de
estar a trabalhar na Câmara
Eclesiástica”.
No seu jeito brincalhão
quis minimizar o seu papel
neste trabalho que o envolveu
nos anos da guerra. E
talvez por isso ficou para
sempre escondido o seu contributo
e a sua generosidade,
mas as suas palavras deixam
antever as dificuldades, o
empenho e a dedicação, e
o gosto com que se deixou
envolver nesta causa: “Eu
era uma espécie de intermediário
entre os padres,
as famílias acolhedoras e os
responsáveis dos países de
onde elas vinham. Passaram
por cá cerca de 30 crianças
que foram bem recebidas
sem problemas de maior a
registar. Isto só foi possível
com muito trabalho. As
famílias apareciam e nós
tínhamos que conhecê-las,
saber em que condições
ficavam as crianças, tudo
com critério muito apertado,
pois não se podiam mandar
crianças frágeis, algumas
sem família, para casa de
desconhecidos.
Quase tudo me passava
pelas mãos, mas nunca me
senti o responsável pela
criação da Cáritas entre
nós, éramos muitos os que
fazíamos o que se podiam
para ajudar”.
Para os leirienses a figura
deste homem fica registada
pela sua postura singela e
cândida com que atravessava
as ruas da cidade, de forma
serena e passo certo em direcção
à Câmara Eclesiástica
onde trabalhou durante 50
anos. Um trabalho que soube
vivenciar como forma
de viver o ministério sacerdotal
ao serviço de Deus
e da Igreja “Foi um gosto
pessoal. Gostei muito deste
trabalho na Câmara Eclesiástica.
Permitia-me uma visão
abrangente da diocese e um
contacto com os padres que
provavelmente não é possível
noutros ambientes.
Nisso até me sinto um privilegiado.
Gostei muito de
trabalhar na Câmara Eclesiástica,
era um trabalho
bastante burocrático, havia
um grande contacto com
os padres e as pessoas que
se dedicavam à Igreja. Ali
aprendi a ser sacerdote”.
Aos 93 anos o senhor
cónego Rosa deixou-nos e
foi para a casa do Pai, não
sem antes nos deixar um
segredo para o futuro da
Igreja, sobretudo o das vocações
sacerdotais “ o melhor
caminho para enfrentar a
apregoada crise de vocações
sacerdotais e laicais, é a oração,
e por isso é bom que
se pense num espaço que
ajude a orar, a fazer retiro, a
pensar. Para além da oração,
parece-me que o exemplo da
parte do clero é fundamental
para este dinamismo
vocacional que a diocese
quer viver. Foi o Senhor que
escolheu os apóstolos, é Ele
também que nos escolhe a
nós. Não se pode só olhar
para a própria vocação é
preciso também preocuparse
com os outros. Antigamente
havia pessoas que
encaminhavam outras para
o seminário, umas ficavam
outras não. É preciso continuar
a desafiar”.

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